A evolução da medicina nas últimas décadas desencadeou o crescimento de doenças que anteriormente passavam desapercebidas porque o indivíduo morria antes de sua progressão. Um exemplo disso é a retinopatia de prematuridade que ocorre em crianças prematuras com peso inferior a 1,5 quilo.
Antigamente, a probabilidade de que recém-nascidos com sete ou oito meses de gestação e com peso inferior a 1,5 quilo sobrevivessem era mínima. Por isso, esse tipo de retinopatia era raro. Hoje, já é um procedimento rotineiro fazer exames para detectar a doença em prematuros com essas características. "Pelo menos deveria ser rotineiro", afirma Sérgio Kniggendorf, oftalmologista do Hospital Oftalmológico de Brasília (HOB). Segundo ele, todos os grandes hospitais da capital federal, públicos ou privados, adotam esse procedimento. Entretanto, clínicas menores em centros menos especializados nem sempre têm oftalmologistas em seus quadros.
A retinopatia da prematuridade é uma doença vascular relacionada à formação da retina. Até mesmo recém-nascidos com 40 semanas de gestação podem não estar com a retina totalmente formada, contudo, nesse caso, como não há necessidade de receberem oxigênio, a retina se formará normalmente mesmo após o nascimento. Os prematuros, como permanecem por alguns dias recebendo oxigênio, necessitam ser acompanhados para verificar se os vasos sangüíneos que irrigam os olhos se desenvolvem corretamente.
Segundo Kniggendorf, o ideal é que os pais de prematuros sejam aconselhados a levarem seus filhos ao oftalmologista tão logo tenham alta do berçário. Só um especialista pode garantir se a há necessidade de tratamento mais intenso. Cerca de 90% dos casos de retinopatia em fase aguda regridem espontaneamente, podendo resultar em visão normal ou danos visuais menores. Os casos um pouco mais complicados podem ser tratados com laser, que elimina o crescimento anormal e acaba com a formação das cicatrizes que causam os prejuízos visuais. Casos mais graves requerem cirurgia.
No Hospital Universitário de Brasília, onde trabalha voluntariamente examinando recém-nascidos prematuros, Kniggendorf identificou oito casos de retinopatia de prematuridade num universo de 50 bebês. Desses, dois precisaram de intervenções cirúrgicas. "São dois possíveis casos de cegueira irreversível que pudemos evitar", comemora o médico.
Quanto menos peso tiver o prematuro, maior a probabilidade dele vir a desenvolver a retinopatia, pois mais tempo ficará exposto ao oxigênio. "Nos recém-nascidos com peso inferior a um quilo, as chances de que ele venha a desenvolver a doença são de 80%", informa Kniggendorf. Nos casos mais graves, se não tratada, a retinopatia pode prejudicar definitivamente a visão do indivíduo e em alguns casos pode evoluir para um descolamento de retina, levando-o à cegueira. As chances de um portador da doença desenvolver no futuro uma miopia de alto grau são bem maiores.
Fonte: Radiobrás - 16/12/2005