23/01/2006
Volta às aulas de bem com a visão
Algumas crianças que freqüentam a escola acabam sendo rotuladas como lentas, preguiçosas e até incapazes por não apresentarem resultados compatíveis ao restante da sala. As dificuldades em assimilar as informações podem gerar desconforto, desinteresse, irritação e até torná-las agressivas. O que os pais não sabem é que esses distúrbios, muitas vezes, podem ser rapidamente solucionados levando seus filhos a um oftalmologista.
Dá para imaginar como uma criança se sente quando não consegue ver e muito menos entender o que o professor coloca na lousa? Segundo o programa Alfabetização Solidária, que conta com a parceria do Ministério da Educação e Cultura (MEC), a dificuldade em enxergar corresponde a 22,9% dos casos de abandono da escola entre os alunos do Ensino Fundamental da rede pública.
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que cerca de 12% das crianças brasileiras apresentam algum problema de visão, sendo que desta estatística, 15% encontram-se em idade de cursar o ensino fundamental, considerado pelos educadores como a etapa mais importante de aprendizagem.
É muito importante detectar os sinais que as crianças exteriorizam e assim tomar as devidas providências o mais rápido possível. “Crianças não reclamam de pouca visibilidade ou embaçamento, portanto, cabe aos pais e professores ficarem atentos ao comportamento dos pequenos”, explica Leôncio de Souza Queiroz Neto, médico oftalmologista, diretor do Banco de Olhos e titular do Instituto Penido Burnier de Campinas.
“Percebemos que a Isabela não enxergava quando mostrávamos e apontávamos as coisas e ela dizia que não conseguia ver. Além disso, ela se aproximava muito para assistir televisão. O problema começou quando ela tinha quatro anos. Após consulta com especialista, descobrimos que ela sofria de miopia”, conta Ivan Umberto Fontana que detectou cedo as dificuldades da filha evitando que a doença se agravasse com possíveis problemas na escola.
Segundo Queiroz Neto, quanto antes os pais levarem seus filhos ao oftalmologista, menor será o risco de desenvolverem doenças visuais e mais fácil será a adaptação deles ao uso dos óculos. “O olho humano se desenvolve até os oito anos de idade, depois disso, os problemas podem se tornar irreversíveis”, explica.
As visitas ao oftalmologista devem começar quando o bebê completar seis meses de vida e repetidas de ano em ano. O estrabismo é um exemplo de doença que só se desenvolve quando detectada tardiamente. O processo tem início com a ambliopia, mais conhecido como “olho preguiçoso”. A criança tem maior graduação em um dos olhos, ou seja, um enxerga melhor que o outro, e então passa a “forçar” aquele que tem mais visibilidade. Se o tratamento tiver início entre os quatro e oito anos de idade, a doença pode regredir, caso contrário desenvolverá o estrabismo. Se os pais possuírem alto grau de erro de refração também é recomendado que levem seus filhos ao médico com pelo menos dois anos de idade. “Cerca de 20% das crianças precisam usar óculos por problemas hereditários”, ressalta o médico.
Rejeição - Na maioria das vezes as crianças se sentem desconfortáveis pelo fato de terem que usar óculos. A primeira manifestação geralmente é de rejeição, mas com o passar do tempo, elas acostumam. “A minha filha detestou quando começou o tratamento e ainda por cima ela teve que usar tampão em um dos olhos porque sofria de estrabismo”, diz Aldaleia Barbosa Almeida, mãe de Graziele, 13 anos.
Para outras crianças, a situação pode se tornar um verdadeiro pesadelo. “Os coleguinhas de Graziele começaram a tirar sarro e apelidaram-na de quatro-olhos na escola”, reclama a mãe. Segundo a educadora Maria Ferrão, nestes casos é importante acompanhar a adaptação dos filhos e entrar em contato com os professores para que fiquem atentos ao comportamento das crianças.
A adaptação das crianças com o uso dos óculos pode ter relação direta com o diagnóstico. A visão é responsável por 85% do relacionamento humano com o meio ambiente, por isso, para algumas pode ser altamente gratificante passar a enxergar com nitidez. “No início meu filho chorou muito e ficou assustado. Agora ele usa óculos numa boa e o tem como parte de sua personalidade”, conta Valéria Cristina Cavallari Elias, mãe de Bruno, seis anos, que possui hipermetropia e astigmatismo.
Os pais têm que estimular o uso dos óculos ensinando aos filhos a importância de cuidar da saúde do corpo como um todo, mas enfatizando a visão, afinal, ela corresponde a um dos principais sentidos do ser humano. Os familiares não devem demonstrar qualquer tipo de inconformismo com a situação, principalmente com relação à estética. Segundo Ana Carolina Brito Waltrick, designer do Grupo Tecnol, fabricante de armações oftálmicas há 30 anos no mercado ótico, é importante que os pais participem da escolha da peça, porém, sempre considerando o conforto e a satisfação de seus filhos.
Modelos - Segundo Waltrick, existem algumas estratégias para conciliar a escolha do modelo com o rosto das crianças. “Deve-se levar em conta a centralização dos olhinhos e a adequação ao apoio, já que as crianças possuem o septo nasal mais baixo e as bochechas altas, além de cuidado para que os óculos não cubram tanto o rostinho delas, interferindo nas suas expressões”, explica.
Crianças que estão começando a andar tendem a usar os óculos somente quando estiverem de bom humor e para aquelas hiperativas recomenda-se o uso de lentes de policarbonato, que além de oferecer mais proteção são mais resistentes contra quedas. Os materiais mais indicados para as hastes são os antialérgicos, leves e duráveis como monel, alpaca, grilamid e acetato. “Os pequenos não têm o mesmo cuidado que um adulto na manutenção e conservação dos óculos e uma opção para manter a peça sempre limpa é lavá-la durante o próprio banho da criança”, aconselha Waltrick.
Enquanto ainda dá tempo
Dicas para os pais e professores detectarem sinais de que a visão de seus filhos pode estar comprometida:
Até dois anos de idade
Falta de reação a estímulos luminosos
Aversão à luz
Lacrimejamento excessivo
Manter os olhos fechados por muito tempo
Olho torto
Falta de interesse pelo ambiente e pessoas
Pupila dilatada, opaca ou com reflexo luminoso
Olhos vermelhos e com secreção
Tremor ocular
Dificuldade de engatinhar ou andar
A partir dos três anos de idade
Dor ou coceira nos olhos
Dificuldade em distinguir cores
Cair com freqüência
Olho torto
Virar um dos olhos para fora
Franzir a testa para enxergar
Assistir televisão muito próxima ao aparelho
Enjoar em viagens
Dores de cabeça após leitura e/ou a jornada escolar
Queixar-se de visão dupla ou embaralhada
Olhos vermelhos e irritados
Dificuldade em enxergar a lousa
Desinteresse em sala de aula
Lentidão ao copiar as informações
Evitar brincadeiras ao ar livre
Apertar ou arregalar os olhos para enxergar
Aproximar demais livros e cadernos para ler
Piscar demasiadamente
Falta de reflexo de algum dos olhos em fotografias (a pupila aparece esbranquiçada e não o comum “olho vermelho”)
Incompatibilidade do tamanho dos olhos (um cresce mais do que o outro)
Fonte: Opticanet (Alfapress Comunicações - 16/01/2006)