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05/11/2007

Um novo dono para a Fábrica

Há tempos que a configuração do varejo óptico no mundo está passando por mudanças: grandes redes, franquias e gigantes internacionais comprando cadeias de renome para fazer parte de seus negócios. O cenário, que começou na Europa e nos Estados Unidos, já se expandiu para a Ásia e a pergunta que se fazia a todo o momento, acompanhada das mais diversas especulações e de uma lista interminável de boatos, era quando o Brasil faria parte desse processo.

Muito se falou sobre as possibilidades de a italiana Luxottica, potência da indústria que detém cadeias de varejo como LensCrafters e Sunglass Hut nos Estados Unidos, ser a primeira a aportar no Brasil, mas a investida veio de outro país europeu, a Holanda. No meio de setembro, a Hal Holding, que controla as cadeias européias Pearle Europe e GrandVision e tem cerca de um terço de todo o seu capital investido no setor óptico, anunciava oficialmente a aquisição da rede de ópticas baiana Fábrica de Óculos.

 
Com 28 lojas na Bahia e uma em Sergipe, a rede foi fundada em 1985 pelo ex- balconista Emério Pithon Filho e, além das lojas próprias nestes estados, tem a licença do uso de sua marca vendida para outras lojas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás. A transação entre a Hal e a Fábrica de Óculos inclui 100% das lojas próprias, mas não a compra das outras unidades fora de Salvador e Sergipe. De acordo com números divulgados pela própria Hal, a rede baiana conta com 290 funcionários e números de vendas correspondentes a € 14 milhões(aproximadamente R$ 36 milhões) em 2006.
 
Dois ciclos em encontro
A escolha da rede baiana para marcar o início do trabalho da Hal no Brasil, considerado um país-chave para a expansão do grupo de investidores, tem razões bastante claras. “É uma marca forte, consolidada localmente e com boa imagem ética tanto como empresa quanto na figura de seu fundador e com possibilidades de expansão regional e nacional, além de a Bahia ser um estado que incentiva a formalidade com uma política fiscal interessante”, explica o diretor geral da holding no Brasil, Marcello Macedo.

Macedo será o responsável pelas operações da Fábrica de Óculos daqui para frente, mas, pelo menos durante os próximos seis meses, contará com a consultoria do fundador e de sua atual equipe. Por contrato, Emério Pithon e sua família não podem atuar no setor óptico por no mínimo cinco anos.

“Encaro a venda da empresa como o final de um ciclo: trabalhei muito, fiz a empresa nascer, crescer, tive a ajuda de meus filhos e família e, hoje, esse trabalho está concluído. Não pretendo atuar no ramo óptico e, mais para frente, meus filhos vão decidir em que outro setor investir. Quanto a mim, cumpri minha missão, só não digo que trabalhei a vida toda, pois de quando nasci até meus sete anos eu não trabalhei. Portanto, agora é hora de aproveitar e pescar um pouco”, comenta o fundador da rede.

Planos futuros
Com os pés já fincados no Brasil, a Hal tem a intenção de começar sua empreitada com a expansão local da Fábrica de Óculos, mas, em longo prazo, o objetivo é a presença nacional. Já circulam boatos no mercado sobre a compra da rede paulista Fotoptica, que o diretor da rede afirmou, em entrevista à VIEW, não ter fundamento em fatos reais.

“O perfil que a Hal busca para investir no mundo é o de redes com posições de liderança nos mercados em que atuam, então quem quer que tenha este perfil é um possível candidato. No Brasil, porém, a única coisa concreta é a aquisição da Fábrica de Óculos. A compra de outras redes não está em andamento e nem nos planos por enquanto”, esclarece Macedo.
 
  Quem é a Hal?
Um dos mais importantes grupos de investimentos que atua no varejo óptico mundialmente, a Hal tem sua história iniciada em 1873, em Roterdã, Holanda. Hoje a Hal Trust é o nome da companhia-mãe que engloba a Hal Holding (ações) e a Hal Investiments (fundo de investimentos).

De acordo com o relatório anual de 2006, seus ativos somam € 3.8 milhões. A estratégia da companhia é adquirir quantidades significativas de ações de empresas com potencial de crescimento com o objetivo, em longo prazo, de aumentar o valor investido por cada acionista. Quando escolhe um possível candidato, a Hal procura não apenas o retorno do investimento, mas que o potencial dessa empresa se torne parte ativa dos negócios.

O campo de atuação da Hal não é fechado: há investimento em diversos setores, conforme estejam adequados às suas estratégias de crescimento. Entre os campos de atuação, estão o varejo de óptica, o setor imobiliário (em especial nos arredores da cidade norte-americana de Seattle), além de companhias de simulação de vôo, seguros, aparelhos de audição, madeira para construção civil, mobiliário, transportes de cargas etc.

Por volta de 30% dos investimentos totais estão no varejo de óptica, cujas maiores operações são as das subsidiárias Pearle Europe (a Hal detém 98,3% das ações), com 2.084 lojas em dezenove países da Europa, e a GrandVision S.A. (com 100% das ações), presente em 13 países com 580 lojas.

Só em 2006, a Hal comprou redes na China, na Noruega e na Alemanha por meio das duas grandes subsidiárias de óptica e agregou ao seu portfolio, totalizando 2,8 mil lojas, incluindo as que operam sob sistema de franquia, em 30 países, com um total de vendas que atinge € 1,7 milhão e lucros brutos de € 219 milhões.

No Brasil, a Hal inicia operações com as 29 lojas próprias da Fábrica de Óculos sob o comando do administrador de empresas paulistano Marcello Macedo. No cargo de diretor geral da rede, Macedo estréia no setor óptico brasileiro depois de ter passado por experiências em Portugal e Holanda integrando equipes da própria Hal, companhia para a qual começou a trabalhar após cursar o MBA na London Business School, na Inglaterra. Antes disso, passou no Brasil pela agência de publicidade Publicis Salles Norton e a Electrolux, trabalhando com a linha branca (geladeiras e máquinas de lavar) da marca.

Fonte: Revista View, edição 84